domingo, 21 de agosto de 2011

A cidade vista por dentro

Toda cidade, especialmente as grandes, é uma entidade sócio-espacial complexa. Os processos sociais são responsáveis por animar o núcleo urbano e estão envolvidos na dinâmica da produção do espaço. Qualquer cidade apresenta diferentes tipos de espaços, de acordo com a atividade predominante. Em áreas residenciais encontra-se nada mais ou não muito mais que um comércio de bairro. Já em espaços com comércios e serviços apresentando-se como verdadeiras localidades centrais intra-urbanas.
Os espaços onde as atividades de comércio e serviços se concentram são de vários tipos. A grande maioria das cidades possui, claramente, o seu “centro”, correspondendo, o mais das vezes, ao centro histórico (local onde a urbe foi fundada, e que abriga prédios de um certo ou mesmo um grande valor histórico-arquitetônico). Esse “centro”, no caso das cidades maiores, tendeu, muitas vezes, a se expandir e evoluir até atingir as dimensões de uma moderna área central de negócios, mais conhecida como CBD ( central business district). O CBD sozinho, porém, não daria conta de atender a todas as demandas da cidade por bens de consumo não-rotineiros. Uma cidade, ao crescer vê aumentarem as distâncias e a combinação de densidade demográfica, distância em relação ai centro e renda da população faz aparecerem importantes subcentros de comércio e serviços, o que evita que os moradores dos diferentes bairros precisem, necessariamente, se deslocar para o CBD sempre que precisarem adquirir um bem mais sofisticado do que pão, leite ou jornal. Os subcentros apresentam um status que reflete as características socioeconômicas da população que reside em seu território. Há subcentros de alto status, de médio status e, até, subcentros populares, na periferia metropolitana.
Os espaços residências também se diferenciam entre si sob o ângulo socioeconômico. No Brasil, a variável renda é a principal definidora dessa diferenciação. O que não quer dizer, contudo, que, indireta ou mediatamente, outros fatores, especialmente o fator é, étnico (“racial”), não esteja entrelaçado, historicamente, com o fator renda: a maioria dos moradores de favela do sudeste, do nordeste e do centro-oeste do Brasil é afrodescendente (negros e mulatos), e mesmo no sul do país, onde há presença muito mais expressiva de brancos pobres residindo em favelas, boa parte da população favelada descende de escravos africanos; isso mostra, muito eloquentemente, a força de inércia de uma “liberdade” formalmente conquistada há mais de um século, mas que não veio acompanhada de condições reais de acesso à qualificação profissional, à educação e à moradia digna, do que resultou uma reprodução, geração após geração, de um quadro geral de pobreza e estigmatização.
Em termos muito gerais, essa diferenciação, entre as áreas residenciais de uma cidade reflete uma diferenciação entre grupos sociais. Em outras palavras: diferenças econômicas, de poder, de status etc. entre diversos grupos sociais se refletem no espaço, determinando e influenciando decisivamente onde os membros de cada grupo podem viver. Essas diferenças econômicas, de poder e de prestígio são função de várias coisas, potencialmente: em uma sociedade capitalista moderna, são função, primeiramente, da classe social do individuo, a qual tem a ver com a posição que ele ocupa no mundo da produção. Contudo, outros fatores além do econômico, devem ser considerados: o pertencimento a um grupo étnico, cultural-linguístico ou religioso define, em muitas sociedades, linhas de clivagem muito fortes, ás  vezes intransponíveis, e que se refletem nas separações dos grupos assim definidos no espaços da cidade.
 No Brasil, diversamente, a segregação afeta uma enorme parcela, não raro a maioria da população de uma cidade, a qual mora em favelas, em loteamentos de periferias ou em cortiços. Não se trata, nessa situação, da segregação de um grupo específico, por razões fortemente étnicas ou culturais, embora a correlação entre pobreza e etnicidade seja forte. O que se tem é uma situação na qual os pobres são induzidos, por seu baixo poder aquisitivo, a residirem em locais afastados do CBD e das eventuais amenidades naturais e/ou desprezados pelos moradores mais abastados. Nesses locais, não é apenas a carência de infra-estrutura, a contrastar com os bairros privilegiados da classe média e das elites, que é de moradia ( periferias, cortiços e, principalmente, favelas) é muito forte. Sérios problemas de integração e de convivência entre grupos sociais diferentes e de auto-estima coletiva costumam estar associados a essa questão.
È evidente que, no caso da segregação induzida, as pessoas não “escolhem” viver aqui e não ali, sendo forçadas a isso. Mesmo quando, no decorrer de gerações, se percebe que os membros de determinados grupos (especialmente no caso de minorias étnicas) como que relutam, muitas vezes, em abandonar o gueto ou equivalente, se aventurando a morar em outras partes da cidade, mesmo tendo condições econômicas para isso, tal fato não deve ser confundido com uma “escolhe”: afinal, é o medo de ser hostilizado ou de se sentir só que influencia a decisão. Isso poderia, à primeira vista, ser interpretado como uma espécie de auto-reprodução da segregação, mas o fato é que é a persistência de certos preconceitos ou ódios, disseminados no interior da sociedade, que dificulta a mobilidade espacial dos membros de grupos minoritários, mesmo quando alguns deles alcançam um poder aquisitivo suficiente para residir em áreas de mais alto status.






FONTE: SOUZA, Marcelo Lopez de , ABC do Desenvolvimento Urbano

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